A descoberta da neurociência e o brincar

A descoberta da neurociência e o brincar

Brincar está voltando ao centro de atenções, tanto nos meios acadêmicos e científicos quanto por parte dos gestores de políticas públicas. Podemos afirmar que, finalmente, os adultos, sejam pais, profissionais ou agentes públicos estão começando a valorizar as brincadeiras como meio fundamental para o desenvolvimento integral das crianças e das relações sociais pacíficas e cidadãs.

A neurociência comprovou que no decorrer de todo o processo de desenvolvimento, mesmo antes do nascimento, o cérebro é influenciado não apenas pela herança genética, mas também pelas condições ambientais, incluindo o tipo de criação, cuidados, ambiente e estimulação recebidos pela criança.

Os cientistas de várias disciplinas já compreenderam a importância do ato de brincar, pois ele abrange um amplo leque de experiências e comportamentos que influenciam diretamente o desenvolvimento das habilidades e competências das crianças, tanto em relação ao aprendizado, quanto ao desempenho afetivo-emocional e social.

Definir o que é brincar parece fácil, mas não é. Ele tem padrões determinados. As teorias que estudam as crianças concordam que brincar é importante e que ele existe para algum propósito. Isto implica em dizer que, quando a criança brinca, alguma coisa acontece. Alguns dizem que a criança aprende pela brincadeira, se torna emocional e fisicamente saudável e muito mais. Resumindo, toda a sorte de coisas boas acontece por causa das brincadeiras. Isto é bom para as crianças, por ser natural para elas. As crianças brincam o tempo todo, em qualquer lugar e não precisam dos adultos para isso. É só observá-las em locais onde aparentemente não há nada para brincar, como em um supermercado ou feira livre, por exemplo.

O problema é que os adultos têm o hábito de interferir, ou na melhor das hipóteses, de ajudar. No caso do brincar, parece que muitos deles gostam de “dar uma mãozinha” para que o brincar faça o que eles acham que deva fazer. Isto só acontecerá se deixarmos com que as crianças brinquem sozinhas. Porém, algumas interferências podem ajudar. Por exemplo: professores podem utilizar jogos para desenvolver habilidades importantes para o currículo escolar; especialistas podem usar brinquedos para tornar a estada de crianças no hospital, mais amena e comunicar a elas o que irá acontecer enquanto estiverem lá.

A formação do vínculo positivo e harmonioso entre os seres humanos se inicia no vínculo mãe e filho, com as primeiras trocas de sorriso, carinho e alegria, gerando confiança e produzindo um modelo que se replicará por toda a vida. Á medida em que as crianças crescem e se desenvolvem, suas habilidades e competências começam a emergir pela exploração das brincadeiras, principalmente as que promovem a estimulação sensorial. Assim, brincar com objetos coloridos, de diferentes texturas e sons na primeira infância, pode contribuir para o surgimento de pessoas bem sucedidas e talentosas, fato já comprovado por pesquisas científicas, em diferentes países.

Os adultos que têm sucesso na sua vida pessoal e profissional, certamente, são os que tiveram uma infância com muitas oportunidades para brincar e conviver alegremente com seus pares, além da própria família. Não podemos nos esquecer de que o brincar acontece quando as crianças fazem o que têm de fazer, isto é quando deixadas por sua própria conta para decidir do que brincar e com quem brincar.

Para realmente oferecermos às crianças as oportunidades adequadas para brincar, precisamos lembrar que elas tanto podem ser um pouco de terra com água para fazer um “bolo”, quanto uma lente de aumento para observar formigas. Resumindo, se conduzido pela criança é brincar, se conduzida pelo adulto é atividade.

Esta seria a melhor definição para o papel do adulto que conhece e respeita a necessidade de brincar das crianças: “É a arte e a ciência de facilitar a brincadeira das crianças”. Facilitadores são pessoas que tornam as coisas mais fáceis para os outros. As pessoas que utilizam essa metodologia fazem com que brincar fique mais fácil para as crianças.

Lembramos ainda que brincar também é um direito da Criança, assegurado pelo Artigo 31 da Convenção dos Direitos da Criança que, no seu Comentário Geral (www2.ohchr.org/english/bodies/crc/comments.htm ) sobre o mesmo destaca que governantes e legisladores devem adotar medidas específicas, visando respeitar e proteger o direito de cada criança, individualmente ou em grupo, para atender aos seus direitos segundo o Artigo 31, incluindo entre outros:

• Apoio para profissionais, pais e cuidadores com orientação, facilitação e apoio sobre o Artigo 31, o que pode ser na forma de orientação prática;

• Atuação para desafiar atitudes culturais muito difundidas que agregam pouco valor aos direitos contidos no Artigo 31, incluindo informação pública sobre o significado do mesmo e medidas para desafiar atitudes negativas difundidas;

• Legislação para garantir o acesso de cada criança, sem discriminação em nenhum nível, às oportunidades oferecidas pelo Artigo 31;

• Legislação e planejamento para assegurar que cada criança tenha tempo e espaço suficiente em sua vida para o exercício dos direitos contidos no Artigo 31, juntamente com cronograma de execução e recursos suficientes para a mesma.

No entanto, será preciso a participação de todos os atores sociais, para oferecer à Primeira Infância, as condições necessárias para o seu pleno desenvolvimento, com conseqüências positivas para toda a sociedade brasileira. Neste sentido, o aprofundamento dos estudos sobre o brincar contribuirá para a compreensão das bases ideais para que esse desenvolvimento ocorra de forma harmoniosa e consistente.

Marilena Flores Martins é Assistente Social, consultora na área do brincar e do Desenvolvimento Social. Co-fundadora da IPA Brasil- Associação Brasileira pelo Direito de Brincar e à Cultura (www.ipabrasil.org).



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